A residência de Sir Claud Amory, Abbot's Cleve, ficava bem na periferia da pequena cidade - melhor dizendo, da aldeia grande - de Market Cleve, a uns quarenta quilômetros a sudeste de Londres. A casa em si, uma mansão vitoriana amplas, mas arquitetonicamente indefinível, situava-se em meio a poucos hectares de terra rural suavemente ondulada, densamente arborizada aqui e ali. O caminho de cascalho, que ia do portão a porta da frente de Abbot's Cleve, serpenteava através de árvores e densos arbustos. Um terraço corria ao longo dos fundos da casa, com um gramado descaindo até um jardim formal um tanto descuidado.
Na sexta-feira a noite, dois dias após sua conversa telefônica com Hercule Poirot, Sir Claud estava sentado em seu estúdio, um cômodo pequeno, mas mobiliado com o maior conforto, no andar térreo, do lado leste da casa. Lá fora, começava a escurecer. O mordomo de Sir Claud, Treadwell, um sujeito alto e de aparência soturna com maneiras impecavelmente corretas, soara o gongo para o jantar dois ou três minutos antes, e sem dúvida a família estava agora reunida à mesa do outro lado do salão.
Sir Claud tamborilava os dedos na escrivaninha, cacoete que tinha quando obrigado a tomar uma decisão rápida. Homem de estatura e envergadura medianas, de seus cinqüenta anos, com o cabelo grisalho escovado diretamente para trás de uma testa alta, e olhos de um azul frio e penetrante, ele tinha agora uma expressão que misturava ansiedade com perplexidade.
Houve uma batida discreta à porta do estúdio, e Treadwell apareceu na soleira.
- Desculpe, Sir Claud. Imaginei que talvez não tivesse ouvido a campainha...
- Sim, sim, Treadwell, está tudo bem. Poderia dizer a eles que estarei lá num instantinho? Diga que estou ao telefone. Na verdade, vou mesmo dar um rápido telefonema. Você pode começar a servir o jantar.
Treadwell retirou-se em silêncio, e Sir Claud, tomando profunda inspiração, puxou o telefone em sua direção. Tirou um pequeno caderno de endereços de uma gaveta, consultou-o brevemente e a seguir pegou o fone. Ouviu por um momento e depois falou.
- Aqui é Market Cleve, 304. Quero que me ligue com um número em Londres. - Ele deu o número, depois se sentou de novo para esperar. Os dedos de sua mão direita começaram a tamborilar nervosamente na escrivaninha.
Vários minutos depois, Sir Claud Amory juntou-se aos demais, assumindo seu lugar a cabeceira da mesa em torno da qual seis outros já estavam sentados. A direita de Sir Claud sentava-se sua sobrinha, Barbara Amory, com Richard, seu primo e filho único de Sir Claud, ao seu lado. A direita de Richard Amory estava um hóspede da casa, Dr. Carelli, um italiano. Do lado oposto a Sir Claud sentava-se Caroline Amory, sua irmã. Uma solteirona de meia-idade, ela vinha administrando a casa para Sir Claud desde que ele perdera a esposa, alguns anos antes. Edward Raynor, secretário de Sir Claud, sentava-se à direita da Srta. Amory, com Lúcia, esposa de Richard Amory, entre ele e o dono da casa.
O jantar, nesta ocasião, não tinha nada de festivo. Caroline Amory fez várias tentativas de manter conversa com o Dr. Carelli, que respondia educadamente, mas sem oferecer muita coisa para estender o assunto. Quando ela se voltou para comentar algo com Edward Raynor, aquele jovem normalmente educado e socialmente cortês teve um sobressalto nervoso, murmurou uma desculpa e pareceu embaraçado. Sir Claud estava tão taciturno como de hábito na hora das refeições, ou talvez mais ainda. Richard Amory lançou um olhar ocasional através da mesa para sua esposa, Lúcia. Somente Barbara Amory parecia bem-humorada e manteve conversação espasmodicamente amena com sua tia Caroline.
Quando Treadwell servia a sobremesa, Sir Claud dirigiu-se subitamente a ele, falando em voz alta o bastante para que todos à mesa ouvissem suas palavras.
- Treadwell - disse, - poderia ligar para a garagem de Jackson em Market Cleve e pedir que mandem um carro com chofer à estação, para aguardar o trem de Londres das 8:50? Um cavalheiro que espero depois do jantar estará chegando naquele trem.
- Certamente, Sir Claud - replicou Treadwell ao sair. Ele mal deixara o salão quando Lúcia, com uma desculpa murmurada, levantou-se abruptamente da mesa e saiu apressada, quase colidindo com o mordomo quando ele estava prestes a fechar a porta atrás de si.
Atravessando o corredor, passou depressa pelo estúdio de Sir Claud e prosseguiu até o enorme cômodo nos fundos da casa. A biblioteca - como era em geral chamada - servia normalmente também como sala de estar. Era uma sala mais confortável do que elegante. Portas envidraçadas davam para o terraço, e outra porta conduzia ao estúdio de Sir Claud. Sobre a cornija que encimava uma ampla lareira aberta estava um relógio antiquado e alguns ornamentos, bem como um jarro contendo acendedores para a lareira.
A mobília da biblioteca consistia em uma estante alta com uma caixa de estanho no topo, uma escrivaninha com telefone, um banco, uma pequena mesa com um gramofone e discos, um sofá, uma mesinha de centro, uma mesa extra com livros apoiados em suportes, duas cadeiras de espaldar reto, uma poltrona e outra mesa tendo em cima uma planta num vaso de latão. A mobília em geral era antiquada, mas não suficientemente velha ou notável para ser admirada como antigüidade.
Lúcia, uma linda mulher de 25 anos, tinha fartos cabelos escuros que caíam pelos ombros, e olhos castanhos que podiam reluzir de modo excitante, mas que agora estavam apagados com uma emoção reprimida não muito fácil de definir. Ela hesitou no meio da biblioteca, depois seguiu até as portas envidraçadas e, descerrando levemente as cortinas, olhou para a noite lá fora. Soltando um suspiro quase inaudível, pressionou a testa contra o vidro frio e se perdeu em pensamentos.
A voz da Srta. Amory podia ser ouvida lá fora no corredor, chamando:
- Lúcia... Lúcia... onde está você?
Um momento mais tarde, a Srta. Amory, uma dama idosa e um tanto atarantada, poucos anos mais velha que seu irmão, entrou na biblioteca. Aproximando-se de Lúcia, pegou a mulher mais jovem pelo braço e conduziu-a até o sofá.
- Aqui, minha querida. Sente-se aqui - disse, apontando para uma extremidade do sofá. -Você vai ficar bem em um minuto ou dois.
Enquanto se sentava, Lúcia deu um débil sorriso de gratidão para Caroline Amory.
- Sim, claro - concordou. - Já está passando, de fato.
Embora falasse um inglês impecável, talvez impecável até demais, uma inflexão ocasional denunciava que o inglês não era sua língua materna. - Eu apenas tive uma vertigem, só isso - continuou. - Muito ridículo da minha parte. Nunca sofri disso antes. Não consigo imaginar por que teria acontecido. Por favor, volte, tia Caroline. Ficarei inteiramente bem aqui. - Ela tirou um lenço de sua bolsa, enquanto Caroline Amory observava, solícita. Após enxugar os olhos, devolveu o lenço à bolsa e sorriu de novo. - Ficarei inteiramente bem - repetiu.
A Sita. Amory não parecia convencida.
-Você realmente não pareceu bem toda esta noite, querida, sabe disso - assinalou, estudando Lúcia.
- Não mesmo?
- Não mesmo - replicou a Srta. Amory. Ela sentou-se no sofá, perto de Lúcia. -Talvez você tenha pegado uma pequena friagem, meu bem - chilreou ela ansiosamente. - Os verões ingleses podem ser muito traiçoeiros, você sabe. De modo algum são como o sol quente na Itália, ao qual você está mais acostumada. Sempre penso como é tão deliciosa a Itália...
- Itália - murmurou Lúcia com um ar distante nos olhos, enquanto punha a bolsa a seu lado no sofá. - Itália...
- Eu sei, minha criança, como deve ser triste sentir falta do próprio país. Deve ter sentido um contraste tão chocante... o clima, para começar, e os costumes diferentes. E devemos ter parecido bastante frios. Agora, os italianos...
- Não, nunca. Eu nunca senti falta da Itália - gritou Lúcia, com uma veemência que surpreendeu a Srta. Amory. - Nunca.
- Ora, vamos, criança, não há desgraça alguma em sentir um pouco de saudade de casa...
- Nunca! - repetiu Lúcia. - Odeio a Itália. Sempre odiei. Para mim é como estar no céu aqui na Inglaterra, com todas essas pessoas tão gentis. É o próprio céu!
- É realmente muito agradável ouvir isso de você, meu bem - disse Caroline Amory, - embora eu tenha certeza de que está apenas sendo gentil. É verdade que todos tentamos fazer com que se sinta feliz e em casa aqui, mas seria perfeitamente natural você sentir saudades da Itália às vezes. E depois, não tendo mãe...
- Por favor... por favor - Interrompeu-a Lúcia. - Não fale de minha mãe.
- Não, claro que não, querida, se assim prefere. Não pretendia incomodá-la. Gostaria de uns sais aromáticos? Tenho um pouco no meu quarto.
- Não, obrigada - replicou Lúcia. - De fato, estou perfeitamente bem agora.
- Não há problema, afinal, você sabe - persistiu Caroline Amory. - Tenho uns sais muito bons, de uma adorável cor rosada, e num frasquinho dos mais charmosos. E muito penetrantes. Sal amoníaco, sabe. Ou é essência salina? Nunca lembro direito. Mas, de qualquer modo, não é aquele que purifica o banho.
Lúcia sorriu gentilmente, mas não respondeu. A Srta. Amory se levantara e parecia incapaz de decidir se ia ou não buscar os sais. Moveu-se indecisa de volta ao sofá e rearrumou as almofadas.
- Sim, acho que deve ter sido uma friagem súbita - continuou. -Você era o retrato absoluto da saúde esta manhã. Será que foi a emoção de ver este seu amigo italiano, o Dr. Carelli? Ele apareceu tão súbita e inesperadamente, não foi? Deve ter sido um choque para você.
O marido de Lúcia, Richard, entrara na biblioteca enquanto Caroline Amory falava. Ela não o notou, pois não pôde entender por que suas palavras pareciam ter perturbado Lúcia, que se recostou, fechou os olhos e sentiu calafrios.
- Oh, querida, o que é? - perguntou a Srta. Amory. - Está com vertigens de novo?
Richard Amory fechou a porta e se aproximou das duas mulheres. Um jovem inglês de beleza convencional de seus trinta anos, tinha cabelo ruivo e altura mediana, com uma figura vigorosa um tanto atarracada.
- Pode ir terminar seu jantar, tia Caroline - disse ele para a Srta. Amory. - Lúcia ficará bem comigo. Cuidarei dela.
Caroline Amory ainda parecia indecisa.
- Oh, é você, Richard? Bem, talvez seja melhor eu voltar - disse ela, dando um ou dois passos relutantes em direção à porta. -Você sabe que seu pai detesta perturbação de qualquer espécie. Em especial com um hóspede aqui. Não é como se fosse algum amigo íntimo da família. -Voltou-se para Lúcia. - Eu estava só dizendo, não é, querida, que foi muito estranho o Dr. Carelli aparecer da maneira como fez, sem a menor idéia de que você estivesse vivendo nesta parte do mundo. Simplesmente o encontrou na aldeia e o convidou para o fim de semana. Deve ter sido uma grande surpresa para você, não deve?
- Foi - replicou Lúcia.
- O mundo é realmente muito pequeno, é o que eu sempre disse - continuou a Srta. Amory. - Seu amigo é um homem muito atraente, Lúcia.
- A senhora acha?
- Pelos padrões estrangeiros, é claro - concedeu a Srta. Amory, - mas distintamente bonito. E fala inglês muito bem.
- É, acho que fala.
A Srta. Amory não parecia propensa a abandonar o assunto.
- Não fazia mesmo idéia de que ele estivesse nesta parte do mundo? - perguntou.
- Nem em qualquer outra - replicou Lúcia, enfática. Richard Amory ficara observando sua esposa com atenção. Agora voltou a falar.
- Deve ter sido uma deliciosa surpresa para você, Lúcia - disse ele.
Lúcia olhou-o rapidamente, mas nada respondeu. A Srta. Amory exultava.
- Sim, de fato - continuou ela. - Você o conhecia bem na Itália, querida? Era um grande amigo seu? Suponho que deve ter sido.
Houve uma súbita amargura na voz de Lúcia.
- Ele nunca foi um amigo - disse.
- Ah, sim. Simplesmente um conhecido. Mas aceitou seu generoso convite para ficar. Costumo pensar que estrangeiros são propensos a ser um tanto aproveitadores. Oh, claro que não me refiro a você, meu bem. - A Srta. Amory teve o bom senso de fazer uma pausa e corar. - Quero dizer, você é meio inglesa, de qualquer modo. - Ela olhou maliciosamente para o sobrinho e continuou: - De fato, ela é quase inglesa agora, não é, Richard?
Richard Amory não reagiu à malícia de sua tia. Em vez disso, caminhou para a porta e abriu-a, como se convidando a Srta. Amory a ir se juntar aos outros.
- Bem - disse a dama, enquanto se movia relutante para a porta, - se tem certeza de que não posso ser mais útil...
- Não, não. - O tom de Richard foi tão abrupto quanto suas palavras, enquanto mantinha a porta aberta para ela. Com um gesto indeciso e um último sorriso nervoso para Lúcia, a Srta. Amory saiu.
Soltando um suspiro de alívio, Richard fechou a porta atrás dela e voltou para a esposa.
- Que amolação - queixou-se ele. - Pensei que ela nunca sairia.
- Ela só estava tentando ser gentil, Richard.
- Oh, ouso dizer que estava. Mas ela tenta com empenho exagerado.
-Acho que gosta de mim - murmurou Lúcia.
- O quê? Oh, claro. - O tom de Richard Amory foi distraído. Ficou ali parado, observando a esposa atentamente. Por alguns momentos, fez-se um silêncio constrangido. Depois, chegando mais perto, Richard baixou o olhar para Lúcia. -Tem certeza de que nada posso fazer por você?
Lúcia o encarou, forçando um sorriso.
- Nada, realmente. Obrigada, Richard. Volte para a sala de jantar. Estou perfeitamente bem agora.
- Não - replicou o marido. - Ficarei com você.
- Mas eu preferia ficar sozinha.
Houve uma pausa. A seguir, Richard falou de novo, enquanto ia para trás do sofá.
- As almofadas estão confortáveis? Gostaria de uma outra para apoiar a cabeça?
- Estou bem confortável assim - protestou Lúcia. - Seria bom, porém, tomar um pouco de ar. Poderia abrir as portas?
Richard foi até as portas envidraçadas e tateou desajeitadamente a maçaneta.
- Droga! - exclamou. - O velho fechou isso com uma daquelas trancas que inventou. Só se pode abrir com a chave.
Lúcia encolheu os ombros.
- Bem, não importa. Esqueça - murmurou.
Richard retornou, sentou-se numa das cadeiras à mesa. Inclinou-se à frente, descansando os cotovelos nas coxas.
- Sujeito maravilhoso, o velho. Sempre inventando uma coisa ou outra.
- É - replicou Lúcia. - Deve ganhar muito dinheiro com suas invenções.
- Aos montes - disse Richard, melancólico. - Mas não é o dinheiro que tem apelo para ele. Esses cientistas são todos iguais. Sempre no rastro de alguma coisa totalmente impraticável, de nenhum interesse para ninguém que não eles mesmos. Bombardear o átomo, pelo amor de Deus!
- Mas, de qualquer modo, seu pai é um grande homem.
- Suponho que seja um dos maiores cientistas da atualidade - disse Richard de má vontade. - Mas não enxerga outro ponto de vista que não o seu - continuou, com irritação crescente. - Tem me tratado pessimamente.
- Eu sei - concordou Lúcia. - Ele mantém você aqui, amarrado a esta casa, quase como se fosse um prisioneiro. Por que o fez desistir da carreira militar para vir morar aqui?
-Acho que pensava que eu o ajudaria no seu trabalho. Mas deveria ter sabido que eu não teria a menor utilidade para ele no seu campo. Não tenho cabeça para isso. - Ele chegou a cadeira para mais perto de Lúcia e inclinou-se de novo à frente. - Meu Deus, Lúcia, às vezes chego a ficar desesperado. Lá está ele, nadando em dinheiro e gastando cada centavo nas suas malditas experiências. Seria de pensar que me deixaria ter alguma coisa do que um dia será meu, de qualquer modo, e que me permitisse sair deste lugar.
Lúcia sentou-se empertigada.
- Dinheiro! - exclamou, amarga. - Tudo gira em torno disso. Dinheiro!
- Estou igual a uma mosca capturada numa teia de aranha - continuou Richard. - Desamparado. Absolutamente desamparado.
Lúcia olhou para ele com uma ânsia suplicante.
- Oh, Richard - exclamou. - Eu também.
O marido encarou-a, alarmado. Estava a ponto de falar quando Lúcia continuou:
- Eu também. Desamparada. E quero ir embora. - Levantou-se subitamente e se aproximou dele, falando excitada: - Richard, pelo amor de Deus, leve-me embora, antes que seja tarde demais!
- Embora? - A voz de Richard soou vazia e desesperada. -Embora para onde?
- Para qualquer lugar - replicou Lúcia, com emoção crescente. - Qualquer lugar do mundo! Mas longe desta casa. Isso é que é importante: longe desta casa! Estou com medo, Richard, confesso que estou com medo. Há sombras - ela olhou por sobre o ombro dele como se pudesse vê-las, - sombras por toda parte.
Richard permaneceu sentado.
- E como podemos partir sem dinheiro? - perguntou ele. Olhou para Lúcia e continuou, amargo: - Sem dinheiro, um homem não vale muito para uma mulher, não é, Lúcia?
Ela afastou-se dele.
- Por que diz isso? O que quer dizer?
Richard continuou a fitá-la em silêncio, seu rosto tenso e curiosamente sem expressão.
- O que há com você esta noite, Richard? - quis saber Lúcia. - Está diferente, de alguma forma...
Richard ergueu-se da cadeira.
- Estou?
- Sim... o que há?
- Bem... - começou Richard, e depois parou. - Nada. Não é nada.
Ele começou a virar de costas para ela, mas Lúcia puxou-o de volta e colocou as mãos nos seus ombros.
- Richard, meu amor... - começou ela. Ele retirou-lhe as mãos. - Richard - repetiu.
Pondo as mãos atrás das costas, Richard a fitou.
- Pensa que sou um completo idiota? Acha que não vi este seu velho amigo pôr um bilhete em sua mão esta noite?
- Quer dizer que você achou que... Ele a interrompeu com rispidez.
- Por que abandonou a mesa do jantar? Não sentiu vertigem nenhuma, foi tudo fingimento. Queria era ficar sozinha para ler seu precioso bilhete. Não agüentava esperar. Ficou quase louca de impaciência porque não podia livrar-se de nós. Primeiro tia Caroline, depois eu. - Seus olhos estavam frios de mágoa e raiva enquanto olhava para ela.
- Richard - disse Lúcia, - você está louco. Oh, isso é um absurdo. Não pode estar achando que me importo com Carelli! Pode? Pode realmente? O meu amor, Richard, o meu amor... é você. Não há ninguém senão você. Deve saber disso.
Richard manteve os olhos fixos nela.
- O que diz no bilhete? - perguntou ele baixinho.
- Nada... nada de especial.
- Então me mostre.
- Eu... não posso - disse Lúcia. - Já o destruí.
Um sorriso fingido surgiu e sumiu do rosto de Richard.
- Não, você não o destruiu - insistiu. - Mostre-me. Lúcia ficou em silêncio por um momento. Ela o fitou, suplicante. Disse:
- Richard, não confia em mim?
- Eu poderia tomá-lo de você à força - resmungou ele entre dentes, avançando um passo em direção a ela. - Estive pensando...
Lúcia recuou com um grito débil, os olhos ainda fixos em Richard como se para convencê-lo a acreditar nela. De repente, ele deu-lhe as costas.
- Não - disse, como se consigo mesmo. - Creio que há coisas que não se pode fazer. -Voltou-se para encarar a esposa. - Mas, por Deus, vou esclarecer com Carelli.
Lúcia pegou-lhe o braço com um grito de alarme.
- Não, Richard, você não deve. Não deve. Não faça isso, eu lhe peço, não faça isso.
- Está temerosa por seu amante, não é? - zombou Richard.
- Ele não é meu amante - replicou Lúcia, veemente. Richard pegou-a pelos ombros.
-Talvez não seja... ainda - disse ele. -Talvez ele...
Interrompeu-se ao ouvir vozes no corredor. Fazendo um esforço para se controlar, foi até a lareira, pegou uma carteira de cigarros, isqueiro, e acendeu um. Quando a porta do corredor se abriu e o som das vozes ficou mais alto, Lúcia sentou-se na cadeira recém-desocupada por Richard. Seu rosto estava pálido, as mãos úmidas em tensão.
A Srta. Amory entrou, acompanhada pela sobrinha Barbara, uma jovem extremamente moderna de 21 anos. Balançando sua bolsa, Barbara atravessou o salão na direção dela.
- Olá, Lúcia, já melhorou? - perguntou.
LIVRO TERMINADO E LEITORA COMPLETAMENTE ENCANTADA! MUITO BOM MEEESMO! *-*
Mundinho particular...
Espaço não muito divulgado! De certa forma, me serve apenas como uma maneira de "desopilar", postar algumas mensagens, escrever alguns pensamentos, enfim... Nada em especial! ;)
sábado, 14 de agosto de 2010
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Ouvimos falar de soberba, e talvez imaginemos uma conduta despótica, avassaladora; grandes ruídos de vozes que aclamam, e o triunfador que passa, como um imperador romano, debaixo dos altos arcos, fazendo menção de inclinar a cabeça, porque teme que a sua fonte gloriosa toque o branco mármore.
Sejamos realistas: essa soberba só tem lugar numa imaginação tresloucada. Nós temos que lutar contra outras formas mais sutis, mais freqüentes: o orgulho de preferir a excelência própria à dos outros; a vaidade nas conversas, nos pensamentos e nos gestos; uma suscetibilidade quase enfermiça, que se sente ofendida com palavras e ações que de modo algum significam um agravo.
Tudo isto é que pode ser e é uma tentação comum. O homem considera-se a si próprio como o sol e o centro dos que estão ao seu redor. Tudo deve girar em torno dele. E, com a sua preocupação mórbida, não raramente recorre até à simulação da dor, da tristeza e da doença: para que os outros cuidem dele e o mimem.
Sejamos realistas: essa soberba só tem lugar numa imaginação tresloucada. Nós temos que lutar contra outras formas mais sutis, mais freqüentes: o orgulho de preferir a excelência própria à dos outros; a vaidade nas conversas, nos pensamentos e nos gestos; uma suscetibilidade quase enfermiça, que se sente ofendida com palavras e ações que de modo algum significam um agravo.
Tudo isto é que pode ser e é uma tentação comum. O homem considera-se a si próprio como o sol e o centro dos que estão ao seu redor. Tudo deve girar em torno dele. E, com a sua preocupação mórbida, não raramente recorre até à simulação da dor, da tristeza e da doença: para que os outros cuidem dele e o mimem.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
AGATHA CHRISTIE com Charles Osborne - Café preto (CAPÍTULO 1)
Hercule Poirot tomava o café da manhã no seu pequeno porém aconchegante apartamento em Whitehall Mansions. Tinha apreciado o brioche e a xícara de chocolate quente. Para surpresa de seu criado George, pois Poirot era uma criatura metódica que raramente variava a rotina do seu breakfast, o patrão pediu-lhe que preparasse uma segunda xícara de chocolate. Enquanto esperava por ela, relanceou de novo para a correspondência da manhã, pousada sobre a mesa.
Meticulosamente ordeiro como sempre, ele colocou os envelopes descartados numa pilha bem arrumada. Haviam sido abertos com cuidado, com uma espátula em forma de espada em miniatura que seu velho amigo Hastings lhe dera como presente de aniversário havia muitos anos. Uma segunda pilha continha aqueles comunicados que considerava de nenhum interesse - panfletos, principalmente, - que no momento oportuno pediria a George para dar um fim. A terceira pilha consistia naquelas cartas que exigiam algum tipo de resposta, ou pelo menos confirmação de recebimento. Cuidaria disso depois do desjejum e, em todo caso, não antes das dez horas. Poirot achava não ser muito profissional começar uma rotina diária de trabalho antes das dez. Quando estava envolvido num caso... ah, bem, claro que aí era diferente. Recordou-se daquela vez em que ele e Hastings levantaram bem antes do alvorecer a fim de... Mas não, Poirot não queria seus pensamentos se alongando no passado. O passado feliz. O último caso deles, envolvendo uma organização criminosa internacional conhecida como "Os Quatro Grandes", alcançara um final satisfatório, e Hastings retornara para a Argentina, para sua esposa e sua fazenda. Embora o velho amigo estivesse temporariamente de volta a Londres, resolvendo negócios ligados a fazenda, era bastante improvável que ele e Poirot se vissem trabalhando juntos outra vez para desvendar um crime. Era por isso que Poirot estava se sentindo inquieto nesta agradável manhã primaveril de maio de 1934? Para todos os efeitos aposentado, mais de uma vez ele se sentira tentado a voltar à ativa quando se lhe apresentava um caso especialmente interessante. Gostaria de estar farejando de novo, tendo Hastings a seu lado para funcionar como uma espécie de caixa de ressonância para seus palpites e teorias. Mas nada de profissionalmente interessante surgira para Poirot ao longo de vários meses. Não havia mais crimes e criminosos imaginativos? Era tudo só violência e brutalidade, aquele tipo de assassinato e roubos sórdidos, indignos da investigação de Poirot?
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada silenciosa de George ao seu lado, trazendo a segunda e bem-vinda xícara de chocolate. Bem-vinda não apenas porque apreciava o aroma doce e penetrante, mas também porque prorrogaria por mais alguns minutos a noção de que aquele dia, uma agradável manhã de sol, se estenderia diante dele sem nada potencialmente mais excitante do que um exercício no parque e uma caminhada através de Mayfair até seu restaurante preferido no Soho, onde almoçaria sozinho - o quê, desta vez?, - com um pequeno patê de entrada, depois o habitual bonne femme, seguidos por...
Percebeu que George, tendo colocado o chocolate sobre a mesa, estava se dirigindo a ele. O impecável e imperturbável George, um inglês da cabeça aos pés e um tanto sonso, estava havia um bom tempo com Poirot, e era tudo que ele desejava no que diz respeito a um criado pessoal. Sem a menor curiosidade e extraordinariamente relutante em expressar sua opinião sobre qualquer assunto, George era uma mina de informação acerca da aristocracia britânica, e tão fanaticamente organizado quanto o próprio grande detetive. Mais de uma vez Poirot lhe dissera: "Você passa as calças admiravelmente, mas é um zero em imaginação." Imaginação, porém, era o que não faltava a Hercule Poirot. Mas a habilidade para passar um par de calças da maneira correta era, em sua opinião, uma rara conquista. Sim, ele era realmente afortunado em ter George como criado pessoal.
- ...e aí tomei a liberdade, senhor, de prometer que retornaria a ligação nesta manhã - estava dizendo George.
- Desculpe, meu caro George - replicou Poirot. - Eu estava divagando. Alguém telefonou, você disse?
- Sim, senhor. Foi no final da noite, quando o senhor estava no teatro com a Sra. Oliver. Fui para a cama antes de sua volta e achei desnecessário deixar-lhe um bilhete àquela hora tardia.
- Quem foi que ligou?
- O cavalheiro se anunciou como Sir Claud Amory, senhor. Deixou o número do seu telefone, que parece ser de algum lugar em Surrey. Era um assunto muito delicado, disse ele, e pediu para, quando ligar, não dar seu nome a ninguém, mas para insistir em falar pessoalmente com Sir Claud.
- Obrigado, George. Deixe o número dele em minha escrivaninha - disse Poirot. - Ligarei para Sir Claud depois que tiver lido o Times desta manhã. Ainda é um pouco cedo para telefonar, assim como para tratar de assuntos delicados.
George fez uma mesura e saiu. Poirot terminou lentamente sua xícara de chocolate e depois seguiu para a varanda com o jornal.
Poucos minutos depois, o Times tinha sido posto de lado. O noticiário internacional era, como sempre, deprimente. Aquele terrível Hitler havia transformado os tribunais alemães em sucursais do Partido Nazista, os fascistas tinham assumido o poder na Bulgária e, pior que tudo, no próprio país de Poirot, a Bélgica, 42 mineiros haviam morrido após uma explosão em uma mina perto de Mons. As notícias domésticas eram um pouco melhores. Apesar dos receios das autoridades, as tenistas em Wimbledon tiveram permissão para usar short naquele verão. Nem os obituários eram reconfortantes, pois pessoas da idade de Poirot, e até mais jovens, pareciam empenhadas em morrer.
Largando o jornal, Poirot recostou-se na sua confortável cadeira de vime, os pés apoiados num pequeno tamborete. Sir Claud Amory, especulou. O nome não lhe era estranho, ouvira-o em algum lugar. Sim, este Sir Claud era muito conhecido em alguma esfera. Mas qual? Era um político? Um advogado? Um servidor público aposentado? Sir Claud Amory. Amory.
A varanda dava para o sol matinal, e Poirot a achou cálida o bastante para se aquecer um pouco. Logo ficaria quente demais para ele, pois não era um devoto do sol. "Quando o sol me afugentar", pensou, "então vou me empenhar e consultar o Who's Who. Se este Sir Claud é alguém de alguma notoriedade, certamente estará incluído neste volume tão admirável. Mas se não for...?" - O pequeno detetive deu de ombros expressivamente. Um esnobe inveterado, já estava predisposto em favor de Sir Claud devido ao seu título. Se fosse encontrado no Who's Who, um volume no qual também poderiam ser descobertos detalhes da própria carreira do detetive, então talvez este Sir Claud fosse alguém que merecesse o tempo e a atenção de Hercule Poirot.
Um estímulo de curiosidade e uma súbita brisa fria se combinaram para mandar Poirot para dentro. Entrando em sua biblioteca, foi até uma prateleira de livros de referência e pegou o grosso volume vermelho cujo título, Who's Who, estava gravado em dourado na lombada. Folheando as páginas, achou o verbete que lhe interessava, e leu em voz alta:
"AMORY, Sir Claud (Herbert); cav. 1927; n. 24 nov. 1878. c. 1907, Helen Graham (m. 1929); Escolaridade: Weymouth Gram. Formado pelo Kings College, Londres. Físico-pesquisador, Laboratórios GEC, 1905; RAE Farnborough (Dep. de Rádio), 1916; Centro de Pesquisa Min. Aeronáutica, Swanage, 1921; demonstração de um novo Princípio para partículas de aceleração: o acelerador linear de onda progressiva, 1924. Premiado com Medalha Monroe da Physical Soc. Publications: ensaios em publicações eruditas. Endereço: Abbot's Cleve, perto de Market Cleve, Surrey. Tel.: Market Cleve 304. Clube: Athenaeum.
"Ah, sim", pensou Poirot. "O famoso cientista." Lembrou-se de uma conversa que tivera alguns meses antes com um membro do governo de Sua Majestade, após o que Poirot recuperara alguns documentos perdidos cujo conteúdo poderia causar embaraços ao governo. Haviam conversado sobre segurança, e o político admitira que as medidas de segurança em geral não eram rígidas o suficiente.
- Por exemplo - dissera ele, - este caso no qual Sir Claud Amory está trabalhando agora é de uma importância fantástica em qualquer guerra futura... mas ele se recusa a trabalhar sob as condições do laboratório onde ele e seu invento estariam protegidos adequadamente. Insiste em trabalhar sozinho em sua casa de campo. Sem qualquer segurança. É de arrepiar.
"Será", pensou Poirot enquanto recolocava o Who's Who na estante, "será que Sir Claud está querendo transformar Hercule Poirot num velho e cansado cão de guarda? Os inventos de guerra, as armas secretas, isso não é coisa para mim. Se Sir Claud..."
O telefone tocou no cômodo ao lado, e Poirot pôde ouvir George atender. Um momento depois, o criado apareceu.
- É Sir Claud Amory de novo - disse ele. Poirot foi até o telefone.
- Alô? Aqui é Hercule Poirot - anunciou no bocal.
- Poirot? Não nos conhecemos, embora tenhamos amigos em comum. Meu nome é Amory, Claud Amory...
- Já ouvi falar no seu nome, é claro, Sir Claud - respondeu Poirot.
- Ouça, Poirot, tenho um problema terrivelmente complicado em minhas mãos. Ou melhor, poderia ter. Não tenho certeza. Estive trabalhando numa fórmula para bombardear o átomo... não vou entrar em detalhes, mas o Ministério da Defesa vê isso como algo da maior importância. Meu trabalho agora está completo. Descobri uma fórmula da qual pode ser fabricado um novo e letal explosivo. Tenho bons motivos para suspeitar que alguém em minha casa está tentando roubar a fórmula. Não posso dizer mais nada agora, mas ficaria grato se pudesse vir a Abbots Cleve para passar o fim de semana como meu convidado. Quero que leve a fórmula para Londres e a entregue a certa pessoa no Ministério. Há boas razões para eu não incumbir um mensageiro do Ministério da tarefa. Preciso de alguém que seja ostensivamente um cidadão discreto e não-científico, mas também esperto o bastante...
Sir Claud continuou falando. Hercule Poirot, olhando para o reflexo no espelho da sua cabeça calva e oval e seu bigode elaboradamente encerado, disse a si próprio que nunca, em sua longa carreira, tinha sido considerado discreto - inclusive nem ele se considerava. Mas um fim de semana no campo e uma chance de se encontrar com o notável cientista poderiam ser agradáveis, além, é claro, do reconhecimento adequadamente expressado de um governo agradecido - e apenas por carregar no seu bolso, de Surrey a Whitehall, uma obscura, embora mortífera, fórmula científica.
- Será uma satisfação prestar-lhe esse favor, meu caro Sir Claud - interrompeu ele. - Providenciarei para chegar no sábado à tarde, se lhe for conveniente, e retornarei a Londres, seja lá o que for que deseja que eu traga, no domingo de manhã. Aguardo ansioso por conhecê-lo pessoalmente.
Curioso, pensou ele ao repor o fone no gancho. Agentes estrangeiros poderiam muito bem estar interessados na fórmula de Sir Claud, mas seria o caso de ser realmente alguém da própria casa do cientista...? Ah, sem dúvida muito mais seria revelado no decorrer do fim de semana.
- George - chamou, - por favor, mande meu terno de tweed grosso, meu smoking e calças para lavar a seco. Preciso de tudo para sexta-feira, pois vou passar o fim de semana no campo. - Ele fazia parecer como se fosse para as estepes da Ásia Central e pelo resto da vida.
A seguir, voltando ao telefone, discou um número e esperou alguns instantes antes de falar.
- Meu caro Hastings - começou. - Não gostaria de passar uns dias longe de suas preocupações comerciais em Londres? Surrey é muito agradável nesta época do ano...
Meticulosamente ordeiro como sempre, ele colocou os envelopes descartados numa pilha bem arrumada. Haviam sido abertos com cuidado, com uma espátula em forma de espada em miniatura que seu velho amigo Hastings lhe dera como presente de aniversário havia muitos anos. Uma segunda pilha continha aqueles comunicados que considerava de nenhum interesse - panfletos, principalmente, - que no momento oportuno pediria a George para dar um fim. A terceira pilha consistia naquelas cartas que exigiam algum tipo de resposta, ou pelo menos confirmação de recebimento. Cuidaria disso depois do desjejum e, em todo caso, não antes das dez horas. Poirot achava não ser muito profissional começar uma rotina diária de trabalho antes das dez. Quando estava envolvido num caso... ah, bem, claro que aí era diferente. Recordou-se daquela vez em que ele e Hastings levantaram bem antes do alvorecer a fim de... Mas não, Poirot não queria seus pensamentos se alongando no passado. O passado feliz. O último caso deles, envolvendo uma organização criminosa internacional conhecida como "Os Quatro Grandes", alcançara um final satisfatório, e Hastings retornara para a Argentina, para sua esposa e sua fazenda. Embora o velho amigo estivesse temporariamente de volta a Londres, resolvendo negócios ligados a fazenda, era bastante improvável que ele e Poirot se vissem trabalhando juntos outra vez para desvendar um crime. Era por isso que Poirot estava se sentindo inquieto nesta agradável manhã primaveril de maio de 1934? Para todos os efeitos aposentado, mais de uma vez ele se sentira tentado a voltar à ativa quando se lhe apresentava um caso especialmente interessante. Gostaria de estar farejando de novo, tendo Hastings a seu lado para funcionar como uma espécie de caixa de ressonância para seus palpites e teorias. Mas nada de profissionalmente interessante surgira para Poirot ao longo de vários meses. Não havia mais crimes e criminosos imaginativos? Era tudo só violência e brutalidade, aquele tipo de assassinato e roubos sórdidos, indignos da investigação de Poirot?
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada silenciosa de George ao seu lado, trazendo a segunda e bem-vinda xícara de chocolate. Bem-vinda não apenas porque apreciava o aroma doce e penetrante, mas também porque prorrogaria por mais alguns minutos a noção de que aquele dia, uma agradável manhã de sol, se estenderia diante dele sem nada potencialmente mais excitante do que um exercício no parque e uma caminhada através de Mayfair até seu restaurante preferido no Soho, onde almoçaria sozinho - o quê, desta vez?, - com um pequeno patê de entrada, depois o habitual bonne femme, seguidos por...
Percebeu que George, tendo colocado o chocolate sobre a mesa, estava se dirigindo a ele. O impecável e imperturbável George, um inglês da cabeça aos pés e um tanto sonso, estava havia um bom tempo com Poirot, e era tudo que ele desejava no que diz respeito a um criado pessoal. Sem a menor curiosidade e extraordinariamente relutante em expressar sua opinião sobre qualquer assunto, George era uma mina de informação acerca da aristocracia britânica, e tão fanaticamente organizado quanto o próprio grande detetive. Mais de uma vez Poirot lhe dissera: "Você passa as calças admiravelmente, mas é um zero em imaginação." Imaginação, porém, era o que não faltava a Hercule Poirot. Mas a habilidade para passar um par de calças da maneira correta era, em sua opinião, uma rara conquista. Sim, ele era realmente afortunado em ter George como criado pessoal.
- ...e aí tomei a liberdade, senhor, de prometer que retornaria a ligação nesta manhã - estava dizendo George.
- Desculpe, meu caro George - replicou Poirot. - Eu estava divagando. Alguém telefonou, você disse?
- Sim, senhor. Foi no final da noite, quando o senhor estava no teatro com a Sra. Oliver. Fui para a cama antes de sua volta e achei desnecessário deixar-lhe um bilhete àquela hora tardia.
- Quem foi que ligou?
- O cavalheiro se anunciou como Sir Claud Amory, senhor. Deixou o número do seu telefone, que parece ser de algum lugar em Surrey. Era um assunto muito delicado, disse ele, e pediu para, quando ligar, não dar seu nome a ninguém, mas para insistir em falar pessoalmente com Sir Claud.
- Obrigado, George. Deixe o número dele em minha escrivaninha - disse Poirot. - Ligarei para Sir Claud depois que tiver lido o Times desta manhã. Ainda é um pouco cedo para telefonar, assim como para tratar de assuntos delicados.
George fez uma mesura e saiu. Poirot terminou lentamente sua xícara de chocolate e depois seguiu para a varanda com o jornal.
Poucos minutos depois, o Times tinha sido posto de lado. O noticiário internacional era, como sempre, deprimente. Aquele terrível Hitler havia transformado os tribunais alemães em sucursais do Partido Nazista, os fascistas tinham assumido o poder na Bulgária e, pior que tudo, no próprio país de Poirot, a Bélgica, 42 mineiros haviam morrido após uma explosão em uma mina perto de Mons. As notícias domésticas eram um pouco melhores. Apesar dos receios das autoridades, as tenistas em Wimbledon tiveram permissão para usar short naquele verão. Nem os obituários eram reconfortantes, pois pessoas da idade de Poirot, e até mais jovens, pareciam empenhadas em morrer.
Largando o jornal, Poirot recostou-se na sua confortável cadeira de vime, os pés apoiados num pequeno tamborete. Sir Claud Amory, especulou. O nome não lhe era estranho, ouvira-o em algum lugar. Sim, este Sir Claud era muito conhecido em alguma esfera. Mas qual? Era um político? Um advogado? Um servidor público aposentado? Sir Claud Amory. Amory.
A varanda dava para o sol matinal, e Poirot a achou cálida o bastante para se aquecer um pouco. Logo ficaria quente demais para ele, pois não era um devoto do sol. "Quando o sol me afugentar", pensou, "então vou me empenhar e consultar o Who's Who. Se este Sir Claud é alguém de alguma notoriedade, certamente estará incluído neste volume tão admirável. Mas se não for...?" - O pequeno detetive deu de ombros expressivamente. Um esnobe inveterado, já estava predisposto em favor de Sir Claud devido ao seu título. Se fosse encontrado no Who's Who, um volume no qual também poderiam ser descobertos detalhes da própria carreira do detetive, então talvez este Sir Claud fosse alguém que merecesse o tempo e a atenção de Hercule Poirot.
Um estímulo de curiosidade e uma súbita brisa fria se combinaram para mandar Poirot para dentro. Entrando em sua biblioteca, foi até uma prateleira de livros de referência e pegou o grosso volume vermelho cujo título, Who's Who, estava gravado em dourado na lombada. Folheando as páginas, achou o verbete que lhe interessava, e leu em voz alta:
"AMORY, Sir Claud (Herbert); cav. 1927; n. 24 nov. 1878. c. 1907, Helen Graham (m. 1929); Escolaridade: Weymouth Gram. Formado pelo Kings College, Londres. Físico-pesquisador, Laboratórios GEC, 1905; RAE Farnborough (Dep. de Rádio), 1916; Centro de Pesquisa Min. Aeronáutica, Swanage, 1921; demonstração de um novo Princípio para partículas de aceleração: o acelerador linear de onda progressiva, 1924. Premiado com Medalha Monroe da Physical Soc. Publications: ensaios em publicações eruditas. Endereço: Abbot's Cleve, perto de Market Cleve, Surrey. Tel.: Market Cleve 304. Clube: Athenaeum.
"Ah, sim", pensou Poirot. "O famoso cientista." Lembrou-se de uma conversa que tivera alguns meses antes com um membro do governo de Sua Majestade, após o que Poirot recuperara alguns documentos perdidos cujo conteúdo poderia causar embaraços ao governo. Haviam conversado sobre segurança, e o político admitira que as medidas de segurança em geral não eram rígidas o suficiente.
- Por exemplo - dissera ele, - este caso no qual Sir Claud Amory está trabalhando agora é de uma importância fantástica em qualquer guerra futura... mas ele se recusa a trabalhar sob as condições do laboratório onde ele e seu invento estariam protegidos adequadamente. Insiste em trabalhar sozinho em sua casa de campo. Sem qualquer segurança. É de arrepiar.
"Será", pensou Poirot enquanto recolocava o Who's Who na estante, "será que Sir Claud está querendo transformar Hercule Poirot num velho e cansado cão de guarda? Os inventos de guerra, as armas secretas, isso não é coisa para mim. Se Sir Claud..."
O telefone tocou no cômodo ao lado, e Poirot pôde ouvir George atender. Um momento depois, o criado apareceu.
- É Sir Claud Amory de novo - disse ele. Poirot foi até o telefone.
- Alô? Aqui é Hercule Poirot - anunciou no bocal.
- Poirot? Não nos conhecemos, embora tenhamos amigos em comum. Meu nome é Amory, Claud Amory...
- Já ouvi falar no seu nome, é claro, Sir Claud - respondeu Poirot.
- Ouça, Poirot, tenho um problema terrivelmente complicado em minhas mãos. Ou melhor, poderia ter. Não tenho certeza. Estive trabalhando numa fórmula para bombardear o átomo... não vou entrar em detalhes, mas o Ministério da Defesa vê isso como algo da maior importância. Meu trabalho agora está completo. Descobri uma fórmula da qual pode ser fabricado um novo e letal explosivo. Tenho bons motivos para suspeitar que alguém em minha casa está tentando roubar a fórmula. Não posso dizer mais nada agora, mas ficaria grato se pudesse vir a Abbots Cleve para passar o fim de semana como meu convidado. Quero que leve a fórmula para Londres e a entregue a certa pessoa no Ministério. Há boas razões para eu não incumbir um mensageiro do Ministério da tarefa. Preciso de alguém que seja ostensivamente um cidadão discreto e não-científico, mas também esperto o bastante...
Sir Claud continuou falando. Hercule Poirot, olhando para o reflexo no espelho da sua cabeça calva e oval e seu bigode elaboradamente encerado, disse a si próprio que nunca, em sua longa carreira, tinha sido considerado discreto - inclusive nem ele se considerava. Mas um fim de semana no campo e uma chance de se encontrar com o notável cientista poderiam ser agradáveis, além, é claro, do reconhecimento adequadamente expressado de um governo agradecido - e apenas por carregar no seu bolso, de Surrey a Whitehall, uma obscura, embora mortífera, fórmula científica.
- Será uma satisfação prestar-lhe esse favor, meu caro Sir Claud - interrompeu ele. - Providenciarei para chegar no sábado à tarde, se lhe for conveniente, e retornarei a Londres, seja lá o que for que deseja que eu traga, no domingo de manhã. Aguardo ansioso por conhecê-lo pessoalmente.
Curioso, pensou ele ao repor o fone no gancho. Agentes estrangeiros poderiam muito bem estar interessados na fórmula de Sir Claud, mas seria o caso de ser realmente alguém da própria casa do cientista...? Ah, sem dúvida muito mais seria revelado no decorrer do fim de semana.
- George - chamou, - por favor, mande meu terno de tweed grosso, meu smoking e calças para lavar a seco. Preciso de tudo para sexta-feira, pois vou passar o fim de semana no campo. - Ele fazia parecer como se fosse para as estepes da Ásia Central e pelo resto da vida.
A seguir, voltando ao telefone, discou um número e esperou alguns instantes antes de falar.
- Meu caro Hastings - começou. - Não gostaria de passar uns dias longe de suas preocupações comerciais em Londres? Surrey é muito agradável nesta época do ano...
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